Imagem do personagem da Marvel: Demolidor.

Acessibilidade: E os gamers que não enxergam?

Eu jogo videogames desde que consigo me lembrar, ganhei um Master System com 5 anos, e já costumava jogar antes disso.  E quando você faz algo por tanto tempo, a atividade acaba se tornando natural, é fácil se adaptar a novos controles, ou entender as mecânicas básicas rapidamente, mas acaba até passando batido o fato que existem pessoas com alguma dificuldade pra interagir com qualquer tipo de jogo.

Esse pensamento só passou pela minha cabeça recentemente, ao fazer um trabalho envolvendo acessibilidade para deficientes visuais e ficar com essa dúvida sobre a possibilidade de pessoas cegas jogarem ou não videogames. A primeira coisa que eu descobri, é que pra algumas pessoas isso não faz diferença, como é o caso de Ross Minor, que fez um vídeo explicando como faz para jogar Mortal Kombat. E existem muitos outros como ele.

A outra descoberta interessante, é a existência de jogos voltados para a acessibilidade de pessoas com algum tipo de deficiência visual, que podem também ser jogados sem problemas por quem não as tem.

Esses títulos usam tecnologia binaural, que é simplesmente o ato de gravar áudio utilizando dois microfones, e normalmente um manequim. Com isso  é criado o efeito do som “em 3D”, que pode ser reproduzido em headsets pra dar a sensação de vir de diferentes direções.

Um desses jogos é o “A Blind Legend“, que foi lançado gratuitamente para Android e iOS, e também possui uma versão na Steam, por R$ 17,99. Esse game francês foi lançado em 2014, após uma campanha de financiamento coletivo, e conta a história de um cavaleiro que perdeu a visão, na busca por sua esposa, enquanto é guiado pela filha, que o acompanha durante a aventura. Os controles são simples, com 5 tipos de comandos cobrindo a movimentação do personagem e o combate.

Imagem do game com acessibilidade The Blind Legend. O herói está em pé segurando uma espada, e ao seu lado, sua filha criança monta um cavalo.
Em The Blind Legend, seu protagonista é guiado pela voz de sua filha (Divulgação/ Plug In Digital)

The Nightjar é um thriller Sci-Fi narrado pelo ator Benedict Cumberbatch (Sherlock, Doctor Strange), e ambientado em uma nave destruída e sem luz, onde você deverá confiar apenas em seus ouvidos para não cair nas garras das criaturas espalhadas pelos corredores da sua embarcação. O game está disponível apenas na versão para iOS, e é do estúdio Something Else, que também lançou “Papa Sangre“, outra aventura de terror em áudio.

Futuros desenvolvedores precisam apenas ter um pouco de cuidado ao escolher um tema para seu jogo. Games de terror são extremamente populares, de fato, e o áudio é sempre uma ótima ferramenta de imersão. Mas é bom pensar bem para não acabar tratando a falta de visão como um aspecto negativo, isso já é difícil o suficiente para quem lida de verdade com ela.

Talvez a praticidade dos smartphones façam com que a maioria desses games sejam mobile, mas existem alternativas também para PCs, uma delas é HEARtREAD. Nessa aventura, você deve encontrar a saída de um lugar escuro chamado Forest Cavern, usando apenas as setas do teclado. O game está disponível por 3 dólares no Itchi.io.

Outra bela alternativa é o site AudioGames. Acho que o nome já diz o suficiente, mas eles contam com uma grande lista de jogos feitos, ou modificados para usarem apenas áudio. Ação, aventura, puzzles e até MMOs com diversos tipos de licença, desde os que são totalmente gratuitos, até os pagos, ou que exijam algum tipo de doação para serem liberados.

É claro que essa é só uma parte pequena quando tratamos de acessibilidade, mesmo da visual. É só ver o caso dos diversos tipos de daltonismo, e como detalhes simples da interface de usuário tradicional que usamos podem prejudicar jogadores com algum destas condições. Mesmo assim, é interessante, não só para quem desenvolve, descobrir maneiras diferentes de criar experiências, quebrar os moldes, e desafiar os jogadores de formas que ainda não imaginávamos.

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