O herói de Starr Mazer DSP, jogo que tinha a trilha sonora de Alex Mauer

Alex Mauer, violações de copyright e o ódio online

 

Talvez você não esteja familiarizado com o Starr Mazer: DSP, ou com o nome Alex Mauer. O primeiro é um shooter roguelike de naves, baseado no universo do point and click Starr Mazer e desenvolvido pela Imagos Softworks. Já a segunda é uma compositora que trabalhou na trilha de jogos como Need for Speed: Underground, Serious Sam e o próprio Starr Mazer: DSP. E uma busca rápida por qualquer um dos dois, vai te mostrar que há uma confusão recente envolvendo Alex, a Imagos e mais de uma dezena de Youtubers.

É um caso complicado, e que aparentemente não afetou muitos criadores de conteúdo brasileiros, mas que ainda é uma discussão extremamente válida na minha opinião. Alex havia sido contratada pela Imagos em contrato de prestação de serviços, para trabalhar na produção de trilhas sonoras para diversos projetos. A história começou mesmo após sua saída da empresa, por problemas de saúde.

Starr Mazer: DSP é um shooter sidescroller com visual retrô (Divulgação/Imagos Softworks)
Starr Mazer: DSP é um shooter sidescroller com visual retrô (Divulgação/Imagos Softworks)

Segundo Don Thacker, fundador da Imagos, Alex foi paga não apenas pelo trabalho feito, mas também recebeu a mais, por projetos que não chegaram a ser entregues. Ainda assim, Mauer alegou que a empresa ainda devia dinheiro a ela, sendo que o valor devido variou diversas vezes. E quando isso não resultou em nada, a compositora tentou retirar o jogo Starr Mazer: DSP da Steam, acusando a Imagos de violação de copyright. Porém foi comprovado que, de acordo com o contrato assinado por Mauer, a Imagos é a detentora dos direitos de todo material relacionado a Starr Mazer DSP, incluindo a trilha sonora, e sendo assim, o game não foi retirado da Steam.

Isso deveria ser o suficiente para encerrar o caso, porém Alex não desistiu. Segundo Thacker, ela rejeitou tentativas de acordos amigáveis, que incluíam até os direitos compartilhados da trilha sonora de DSP, com uma parcela dos lucros, e chegou a tentar vender as músicas do Starr Mazer por conta própria no Bandcamp. Após as mesmas provas de que ela não era detentora dos direitos, o site também retirou seu álbum do ar.

E, enquanto essa história já é uma briga longa o bastante, foi só aí que ela saiu totalmente do controle. Incapaz de brigar legalmente com a empresa, ela partiu para o YouTube, reivindicando os direitos autorais de todo e qualquer vídeo relacionado ao DSP. Isso fez com que diversos canais diferentes fossem afetados, desde canais com menos de mil inscritos, até Youtubers mais conhecidos, como Totalbiscuit. A intenção de Mauer com essa atitude era “forçar” os canais que receberam os strikes a se unirem a ela na briga contra a Imagos Softwork.

Se “chantagem” é um dos termos que veio a sua cabeça com essa estratégia, você não está errado. Caso você não entenda como o sistema do YouTube funciona, o negócio é o seguinte: Quando um canal recebe uma notificação de violação de direitos autorais, ele pode contestá-la caso considere injusta. Aí, ou quem fez a queixa segue o rumo legal, ou a ignora e 14 dias depois o vídeo volta ao ar. Porém, se um canal tiver três notificações, ou strikes em seu canal ao mesmo tempo, ele é tirado do ar definitivamente. Mais de 50 youtubers foram afetados, alguns chegando bem próximos do risco de perderem seus canais, e sim, uma fonte de renda.

O que se seguiu foi uma verdadeira novela, com diversos canais cobrindo os eventos e questionando Alex, que se tornava cada vez mais agressiva a cada resposta. Ela atacou vídeos com outras músicas que havia produzido para títulos que nem estavam envolvidos na polêmica, comentou que “gravar vídeos jogando videogames não é um emprego de verdade”, entre outras atitudes. SidAlpha, outro Youtuber que vem cobrindo o caso desde o início, expressou mais de uma vez preocupação pelo estado psicológico de Alex Mauer, que vinha se deteriorando progressivamente.

Nesse ponto que aquele lado obscuro e mimado demais entrou em ação, e fez sua parcela para PIORAR a situação. Assim que o caso se tornou público, milhares de mensagens de ódio começaram a inundar a caixa de entrada e o Twitter de Alex Mauer. Ameaças de morte, ofensas relacionadas ao seu gênero e qualquer outro tipo de ofensas. Claro que o resultado não foi convencer a compositora de que ela estava errada, na verdade, só gerou mais confusão e as respostas de Mauer se tornaram mais agressivas, resultando em envios de ameaça da parte dela, inclusive para SidAlpha.

Mas agora as coisas parecem ter se encaminhado para uma solução, graças a uma campanha encabeçada por TotalBiscuit e outros youtubers no GoFundMe. Arrecadando mais de 15 mil dólares em 3 dias, a campanha foi criada para pagar os honorários de um advogado especializado em leis de copyright, Leonard French, que por sinal, também tem um canal no YouTube. Em seu último vídeo sobre o caso, French explicou que eles conseguiram garantir que Alex Mauer vai receber ajuda médica especializada, um dos principais focos de grande parte dos envolvidos. Com essa parte resolvida, eles partem na semana que vem para o processo legal visando recuperar quaisquer prejuízos sofridos pela Imagos e pelos Youtubers afetados. Ainda há um longo e cansativo caminho pela frente, mas as próximas notícias parecem positivas. A Imagos também já contratou outro compositor para trabalhar em uma trilha totalmente nova para Starr Mazer: DSP. Abaixo você confere o vídeo, em inglês, de French.

 

O OUTRO LADO

Não, eu não quero buscar uma justificativa pras ações de Alex Mauer. Por mais jornalista que eu possa ser, ela prejudicou diversas pessoas e ainda deve ser resposabilizada pelo que fez. Mas o lado que me refiro aqui, é seu. O lado do público da internet que não está necessariamente envolvido no caso, mas de uma forma ou outra ficou sabendo sobre ele.

É claro que é normal se irritar com a história. Eu me irritei, é a reação normal. O problema é o que você resolve fazer depois disso, com aquela sensação de inutilidade perante uma injustiça. Mas a questão aqui é que é fácil esquecer que apesar de tudo Alex Mauer ainda é uma pessoa, alguém que tem família e amigos, e já havia apresentado um histórico de problemas emocionais ou psicológicos que precisavam de acompanhamento.

"Você é um pedaço de carne inútil que merece a execução mais dolorosa possível"
“Você é um pedaço de carne inútil que merece a execução mais dolorosa possível”

Não estou tentando isentá-la da responsabilidade. Mas essa é uma responsabilidade legal, que deve ser resolvida em um tribunal. E eu também não serei ingênuo aqui de acreditar que só uma conversa iria desencorajar todas as mensagens de ódio foram enviadas a ela. Existe um lado bem ignorante na internet, cheio de gente que usa o anônimato para fazer esse tipo de coisa por achar graça nisso, possivelmente derivada também de uma sensação de inutilidade. Mas existe uma parcela que faz isso sem pensar, somos impulsivos assim e é muito fácil desumanizar quem se opõe a nós. Esquecer de como essas coisas espirram em mais gente, como a família de Mauer, e não só no foco do seu ódio.

A questão toda, é que nessa ignorância toda, até gente que estava tentando ajudar foi assediada. Em um vídeo do Jim Sterling, ele deu um endereço de e-mail para quem também tivesse lidando com os problemas de copyright, e da noite pro dia esse endereço de e-mail também foi inundado com o mesmo tipo de mensagens, mesmo ela se chamando Lindsay e claramente não tendo qualquer relação com Alex Mauer.

"Espero que você seja massacrada por perjúrio, ser humano patético."
“Espero que você seja massacrada por perjúrio, ser humano patético.”

E já chegamos a um ponto onde há um número absurdo de histórias onde a comunidade gamer entra por esse lado. Desde as ofensas praticamente diárias enviadas a Anita Sarkeesian, quer você goste dela ou não, esse não é o caso, a até desenvolvedores como o de Black Ops 2, que foi recebeu mensagens com ameaças de morte após mexer no balanceamento do game.

“Toda ação gera uma reação oposta e de igual intensidade”. É um princípio físico, e que pode se aplicar a esse tipo de coisa também. Por mais que uma pessoa responder a uma manifestação de ódio pareça proporcional, você precisa parar para pensar que não foi o único a ter essa ideia, que sua manifestação não terá nenhum efeito positivo e que na pior das hipóteses, você só está prejudicando pessoas que estão do mesmo lado que você (além de também ser mais um dos motivos pelos quais o público ainda vê gamers como um bando de garotos mimados).

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