Drew Scanlon, criador do projeto Cloth Map, em frente a entrada da exposição EuroVision.

Bate papo com Drew Scanlon, criador do Cloth Map

O ano de 2017 foi bem agitado para Drew Scanlon, editor de vídeo do site Giant Bomb. Ele começou o ano se tornando um meme, o White Guy Blinking, depois, encerrou suas atividades no site onde trabalhou por sete anos para dar início ao seu projeto pessoal, o Cloth Map.

O Cloth Map é uma série de documentários que explora como os videogames impactam a vida das pessoas ao redor do mundo. Só no ano passado, Drew já viajou para a Ucrânia, onde passou dois dias em Chernobyl e no Brasil, onde gravou uma série de quatro vídeos, que estão ao final deste texto.

E todo este projeto é mantido com o apoio dos fãs, através do Patreon. Para quem não conhece, o Patreon é um site onde o público ajuda seus criadores de conteúdo preferidos através de doações mensais. Enquanto os documentários são disponibilizados gratuitamente no canal do Cloth Map no Youtube, os apoiadores tem direito a conteúdos extras exclusivos. Então, caso você se interesse pelo projeto após ler esta matéria, lembre-se de apoiar o Drew no Patreon!

Nós do Pixel Cafe tivemos a oportunidade de conversar com o Drew sobre o início do projeto, seu trabalho e sua visita ao Brasil.

Drew Scanlon mostrando seu contador geiger, que todos deviam carregar durante a viagem a Chernobyl
Uma das primeiras viagens de Drew pelo Cloth Map foi para a Zona de Exclusão de Chernobyl, onde cada um tinha que carregar seu próprio contador Geiger

Pixel Cafe: Você conseguiria identificar o momento exato em que a ideia do Cloth Map surgiu?

Drew Scanlon: Na verdade é meio difícil de definir com precisão! Eu queria tentar algo como o Cloth Map há um bom tempo, mas nunca parecia ser um bom momento para dar essa virada na minha vida. Em algum momento (provavelmente no meu aniversário de 30 anos), eu percebi que nunca haveria um momento perfeito, e agora era um bom momento como qualquer outro.

PC: Foi um pouco assustador? Deixar um emprego onde você trabalhou por tanto tempo quanto o Giant Bomb, para começar seu próprio projeto pessoal?

DS: Deixar um emprego estável, especialmente um onde eu trabalhei por sete anos e que eu adorava imensamente, foi definitivamente assustador. Havia várias questões impossíveis de se responder: Quando eu lançasse o Cloth Map, será que faria dinheiro o suficiente para viver E manter as promessas que fiz para as pessoas que me apoiaram? Se as coisas não dessem certo, eu seria capaz de encontrar outro emprego? Será que gostaria desse trabalho tanto quanto gostei de trabalhar no Giant Bomb? Porém, a pergunta mais importante que fiz a mim mesmo foi: “Mesmo que acontecesse o pior, eu me arrependeria de ter tentado?”. E a resposta foi “não”. Na verdade, eu me arrependeria eternamente se eu NÃO tentasse criar o Cloth Map. Então, no fim, mesmo que tenha sido assustador, a decisão já estava tomada. Eu PRECISAVA tentar.

PC: Atualmente o Cloth Map é um trabalho solo? Você pretende aumentar a equipe?

DS: Por hora eu sou o único funcionário em tempo integral, mas o CM tem uma equipe de funcionários de meio período. Joel Fameli veio ao Brasil comigo, como produtor e operador de câmera, e ele também fez parte da edição nos vídeos sobre a Ucrânia e Brasil. George Hurd é responsável pela música no documentário sobre Chernobyl. Jeremy Jayne filmou o vídeo de introdução ao Cloth Map. E eu não posso deixar de considerar a minha família, com quem eu debato ideias frequentemente. Aumentar a equipe seria ótimo, mas nós ainda temos que crescer um pouco mais para que isso aconteça.

PC: Como é o seu fluxo de trabalho? Com todas as viagens, edições e trabalho extra envolvido na produção, você ainda tem tempo para jogar videogames?

DS: O maior desafio até aqui tem sido pensar em como dividir a carga de trabalho. Produção de vídeos é um processo criativo, e pode ser complicado dividi-lo entre diversas pessoas, especialmente se estas pessoas não estão no mesmo espaço físico. Eu passei boa parte de 2017 lutando para achar uma maneira de lidar com isso, e fico feliz em dizer que temos um fluxo de trabalho bem melhor agora. Então a resposta curta é: Quase nenhum tempo para videogames em 2017, esperando que sobre mais em 2018!

PC: O que mais te surpreendeu no Brasil? Você tem algum “melhor momento” da sua viagem?

DS: Antes de vir para o Brasil, eu ouvi de brasileiros e estrangeiros que era um lugar muito perigoso. Talvez tenha sido por causa de todas as precauções que tomamos após esses avisos, mas nada de ruim aconteceu enquanto estávamos lá. Todos os países têm seus lugares ruins, certamente, mas o Brasil que eu tive contato foi muito amigável e gentil. Acho que meu melhor momento veio da inversão das expectativas. Nós tivemos a oportunidade de conhecer a favela da Rocinha com um guia turístico. Eu fiquei impressionado com a beleza do lugar e como eu me senti seguro lá (principalmente após minha guia explicar que é proibido “causar problemas na sua própria vizinhança”). O quarto vídeo do Cloth Map no Brasil foca nesta experiência.

Drew Scanlon em uma das centenas de lojas de consoles e games da Santa Efigênia
Uma das paradas do Cloth Map no Brasil foi na Rua Santa Efigênia, em São Paulo.

PC: E quanto a um momento mais estranho?

DS: Provavelmente quando filmávamos nosso segundo vídeo, sobre o fandom dos games no Brasil. Joey e eu pegamos um táxi até a Brasil Game Show, e acabamos em uma convenção de materiais de casamentos por engano. Acontece que haviam DOIS centros de convenções!

PC: Então agora você viu o nosso mercado de dentro. Os problemas com pirataria, preços de jogos e consoles, o passado e a luta dos desenvolvedores independentes. Quais são suas impressões sobre o mercado de jogos brasileiro?

DS: O que realmente me impressionou foi que, mesmo com tantas dificuldades, inconsistências e obstáculos, os brasileiros são alguns dos fãs mais intensos que eu conheci. Quando visitamos o mercado cinza em São Paulo, por exemplo, a quantidade de itens retrô que encontramos me mostrou que os jogos não são só um interesse passageiro, eles estão enraizados na cultura do país. Isso é verdade principalmente para os desenvolvedores que, não apenas tem que lutar contra os estigmas culturais, mas também cuidar do próprio negócio. Conversar com os desenvolvedores no Rio e em Brasília ajudou a abrir os olhos para os desafios que eles enfrentam. Mas como eu disse, eles são destemidos!

PC: Deixando um pouco de lado o Brasil. Como foi se perder em Chernobyl, mesmo que apenas por alguns minutos?

DS: Ha! Duas coisas passaram pela minha cabeça. Primeiro, eu fiquei extremamente consciente de quão distante eu estava de qualquer ajuda (assumindo que eu não conseguisse encontrar meu grupo). Eu tenho um senso de direção terrível, então nem sabia em qual direção estava a civilização. O melhor a se fazer, era permanecer em um mesmo lugar, mas se eu PRECISASSE sair, não tinha ideia de como retornar com segurança. Além do mais, não é como se eu pudesse escolher uma direção e andar; havia radiação em todo lugar! A segunda coisa que passou pela minha cabeça foi: “Ainda bem que deixei a câmera filmando”.

PC: E quanto aos planos para o futuro? Você pode nos dar alguma dica sobre onde serão as próximas viagens do Cloth Map?

DS: Nós estamos com tudo! Em 2017, Cloth map visitou dois países. Nós queremos triplicar este número em 2018. Um item chave do projeto é dar aos nossos apoiadores a chance de escolher aonde iremos, então não temos um roteiro totalmente planejado. Certos destinos, no entanto, precisam de mais planejamento que outros, então alguns lugares serão simplesmente anunciados, ao invés de colocados para votação. Nossa próxima viagem é a um destes lugares. Eu não quero dizer mais nada, já que nem tudo ainda está definido, mas eu estou bem animado!

Cloth Map no Brasil

Abaixo você confere os vídeos que Drew gravou para o Cloth Map no Brasil. Todos possuem legendas em Português através do YouTube.

1 – O Mercado Cinza dos games no Brasil.

2 – Os fãs brasileiros e os games.

3 – Um retrato dos desenvolvedores brasileiros.

4 – As favelas no Rio de Janeiro.

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