O final de Metal Gear Solid 2

Por que o final de Metal Gear Solid 2 continua tão relevante

Metal Gear Solid 2 sempre foi considerado um dos títulos mais “polêmicos” da série. Muita gente alegou que Kojima havia feito propaganda enganosa, porque todo o material de divulgação do jogo dava a entender que a história seria novamente focada em Solid Snake. Porém, após seu lançamento, descobrimos que apenas cerca de um terço da história era focada no soldado, com o jogador controlando o novo protagonista, Raiden, pelo resto do jogo.

Mas apesar dessa troca surpresa, muito da estrutura do enredo segue o padrão de seu antecessor. Você tem um grupo terrorista com habilidades sobre-humanas, conspirações, traições e uma base para invadir (No caso a Big Shell, uma estação de descontaminação de água). Após avançarmos, descobrimos que o fato da missão de Raiden acontecer de forma bastante semelhante à de Snake, em Metal Gear Solid, tem uma suposta explicação.

É claro que tudo era uma conspiração! O incidente em Big Shell era uma recriação dos eventos de Shadow Moses, no primeiro jogo. A ideia, supostamente, era provar a possibilidade de recriar um soldado com as mesmas habilidades de Solid Snake, ao fazê-lo passar pelas mesmas situações. Um plano chamado S3, Solid Snake Simulation (Simulação de Solid Snake). Isso incluía o treinamento em realidade virtual pelo qual Raiden passou, antes de sua missão real.

Raiden lutando contra um Metal Gear Rex

Vale mencionar que nesta altura, o enredo já deu mais voltas do que julgávamos possível. E incluía o presidente dos Estados Unidos ser um clone do Big Boss que quer encontrar os membros dos Patriots, o equivalente dos Illuminati da série. Então descobrimos que o presidente também foi manipulado, e o plano real era o mencionado acima.

Memes

O jogo continua com você controlando Raiden nu e desarmado, capaz apenas de correr protegendo suas partes íntimas. E, por incrível que pareça, é nessa hora que o assunto fica sério. Bom, isso depois de mais uma reviravolta explicando que o tal plano S3 tinha outro significado e a verdadeira conspiração era orquestrada por uma inteligência artificial que surgiu na Casa Branca.

S3 na verdade é uma sigla para Seleção para Sanidade Social (Selection for Societal Sanity), e é uma forma de controlar a sociedade através da manipulação do fluxo de informação. O princípio desta Inteligência Artificial, é que após o sucesso do mapeamento do genoma humano, ela se tornou digitalizar e manipular a própria vida, utilizando engenharia genética. Porém, existem características humanas que não são repassados através de informação genética, como cultura, história e ideias.

Pra contextualizar melhor, você pode conferir o vídeo abaixo com esse trecho. Legendado em Português pelo canal FoxDie:

 

Todas essas informações que mencionei são gravadas em livros, ou passadas de pessoa para pessoa. Segundo Kojima, este era um dos principais temas de Metal Gear Solid 2: Memes. “Ah, então esse papo furado todo foi só pra falar de meme?”.

Bom, mais ou menos. Sim, memes tem a ver com as imagens engraçadas que você compartilha na internet, mas o termo vai uma pouco mais além. Um dos primeiros registros da utilização do termo Meme foi no livro “O Gene Egoísta”, do biólogo Richard Dawkins.

De uma forma simples, ele partiu do princípio que, da mesma forma que genes carregam informações biológicas de geração para geração, os memes fazem o mesmo, mas com a nossa cultura. Isso quer dizer que costumes, religiões, superstições e até mesmo músicas ou ditados são memes, ou grupos de memes.

Um exemplo: na época do Brasil Colonial, o leite era muito caro e a classe rica não queria gastar ainda mais deixando os escravos consumirem leite também. Como a manga era uma fruta muito comum no interior, e praticamente todos comiam, começou o boato de que comer manga com leite poderia ser fatal. E eu te garanto, que até hoje você encontra muita gente que tem receio de comer manga com leite, no mínimo alegando que “é melhor não arriscar”. Ou seja, o meme de que “manga + leite = morte” começou a se espalhar primeiro intencionalmente, e depois a fonte dele se perdeu, mas a mensagem manteve-se forte, provavelmente porque era associada ao risco de morrer, e assim ninguém questionava sua veracidade.

Controle de Informação

Voltando ao MGS 2, a crítica da Inteligência Artificial é que na era em que vivemos (em 2001) toda a informação está disponível o tempo todo para as pessoas, não existe filtro ou nada que controle a reprodução destas informações. E assim como genes reproduzem-se independentemente de serem benéficos ou mortais, algo se torna um meme sem importar se a informação é útil ou inútil, verdadeira ou falsa, como o caso da manga. E enquanto no passado o conhecimento era filtrado de inúmeras formas antes de ser passado para adiante, a internet permitiu que todo tipo informação seja acumulada sem nenhum controle, não importa o quão trivial.

A IA disfarçada de coronel conversando por Codec com Raiden

Basicamente vivemos em uma época onde o tempo que você leva para acessar um artigo científico é o mesmo para chegar a um post em um blog terraplanista. E para piorar, somos constantemente bombardeados com informações, em grande parte irrelevantes, o que acaba soterrando assuntos mais sérios em uma avalanche de questões supérfluas.

Então não podemos negar que o discurso que a Inteligência Artificial faz no trecho do vídeo tem muito sentido na nossa realidade. Entre redes sociais, e mesmo veículos jornalísticos, assuntos políticos e notícias urgentes disputam espaço com fofocas de celebridades e “vídeos que bombaram na internet”. E quando tudo tem a mesma importância, nada realmente se torna importante. Vira uma disputa por atenção, e nós nos tornamos consumidores passivos. O que importa é apenas causar o primeiro impacto, captar nossa atenção o suficiente para garantir um clique.

É esse fluxo de informação que o S3 visava controlar, para preservar apenas aquilo que, na visão da IA, fosse considerado importante para a sociedade. E também impedir a dispersão de mentiras. Ela seria a curadora de tudo o que fosse exposto na rede, controlando o que seria passado para as próximas gerações e efetivamente regulando o comportamento humano. Com isso, a inteligência artificial moldaria o rumo que nossa espécie tomaria, de acordo com sua própria visão ideal.

É claro que a ideia de uma força maior definindo o que é certo ou errado por nós parece, e é, uma visão assustadora. Chame do que quiser, mas no fim das contas estamos falando de censura. Mesmo que o discurso seja sobre “criação de contexto”, o objetivo final era o controle comportamental, como é dito no próprio diálogo. E então depois de todo esse discurso, o Raiden segue enfrentando robôs gigantes e acaba tudo duelando com o presidente dos Estados Unidos, que é clone de um soldado, em frente ao Memorial Federal em Nova York.

A Relevância de Metal Gear

Mas mesmo com toda essa maluquice característica do Kojima, e também todos os seus problemas como desenvolvedor, afinal ele comete diversas falhas e o objetivo aqui não é endeusar a pessoa, muitos dos temas que ele aborda permanecem importantes. E talvez nenhum deles seja mais atual quanto o de Metal Gear Solid 2. Tenha em mente que o jogo foi lançado 18 anos atrás, uma época onde não havia YouTube ou nenhuma das redes sociais que conhecemos atualmente, e o próprio Google estava no mercado há apenas 3 anos.

E ainda assim, fala-se sobre como, ironicamente, ao conectar as pessoas a um universo muito maior de opiniões, a nossa tendência foi a de nos fecharmos em bolhas cada vez mais específicas. Ao invés de ampliarmos os debates que a rede permite, nós nos isolamos, conversando apenas com quem reflete nossas próprias ideias. “O mundo está sendo engolido por verdades”.

Raiden e Snake conversam no final de Metal Gear Solid 2

Nesse ambiente não há nenhuma “seleção natural” para as ideias que são passados adiante. Cada grupo aceita suas verdades sem questionamento, e simplesmente rejeita qualquer fato que conflite com sua visão, independente da argumentação, resultando na perda do senso crítico, transformando a sociedade em uma massa cada vez mais manipulável. Nos tornamos grupos focais involuntários, com comportamentos, comentários e até cliques estudados para que agências consigam definir nossas próximas atitudes.

Só que aqui não temos super soldados, inteligências artificiais independentes e nem ninjas robóticos. Não existe uma saída milagrosa que nos salve desta situação. Mas o fato de já se discutir isso até muito antes da existência de MGS 2, indica que as pessoas pensam nisso e que devemos manter esse debate. Com todas as críticas que podem ser feitas a Hideo Kojima e seus jogos, há de se reconhecer que este é um tema relevante até hoje, e que fora da ficção cabe a nós mesmos carregarmos a mensagem que Solid Snake passa no final do game. Não existimos apenas para passar nosso DNA adiante, devemos decidir através de arte e de nossas ideias, o que será passado para as próximas gerações. Devemos pensar em que mensagem queremos deixar para nossos filhos, para que eles possam interpretar nossa confusa e triste história.

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