As versões de 1996 e 2013 de Lara Croft

Remake e Remaster: Práticas atuais do mercado de games

Os jogos eletrônicos sempre estiveram em constante evolução. Ao longo dessas quatro décadas, a nossa tão amada indústria cresceu muito, a ponto de se tornar uma das principais formas de entretenimento do mundo, vencendo barreiras e preconceitos pelo caminho. Pequenas empresas de “fundo de quintal” na década de 70, tornaram-se impérios milionários conforme a indústria foi se expandindo, absorvendo ou mesmo varrendo do mapa outras desenvolvedoras menores. Para nós como consumidores a livre concorrência e a “guerra” travada pelas principais empresas é algo bom. Entretanto, o preço de tanto sucesso eventualmente seria cobrado de nós jogadores um dia.

Atualmente, muito se discute sobre as práticas recentes adotadas pelas desenvolvedoras para lucrar cada vez mais com um mesmo produto: As famigeradas microtransações; os lançamentos anuais, com jogos repetitivos e defeituosos; a baixíssima dificuldade e desafio (já abordado aqui pelo nosso editor Renato em outro artigo); games que carecem de conteúdo, geralmente focados no aspecto multiplayer; DLCs; os incontáveis relançamentos, etc. Práticas éticas ou não, o fato é que o mercado de videogames atual se difere muito de anos atrás, onde o dinheiro não parecia falar mais alto que a arte em si.

É inegável que uma empresa, seja ela de qual segmento for, é feita para gerar lucros, e convenhamos que os jogos AAA estão cada vez mais caros de se produzir. Mas será que é realmente necessário gastar mais de 500 milhões de dólares (Destiny, 2014) na produção de um jogo? O lucro no valor pago por uma cópia simples de seu game predileto não é suficiente para a desenvolvedora? Pensando nessa discussão que permeia muitos grupos de gamers por aí, hoje falarei exclusivamente de uma dessas práticas, que ainda costumam causar confusão e dúvida entre os jogadores, os remasters e remakes.

Remake ou Remaster: Diferenças

Embora tenham nomes parecidos, os conceitos de cada um são diferentes, então não confunda um com outro. Lembrando que essa nomenclatura também é usada em outras mídias como na música ou no cinema, por exemplo. Falando de um modo resumido, remake significa “refazer” e dentro do universo dos games já vem de algumas gerações de prática, com produções refeitas do zero.

Já o termo remaster é mais recente. Pegando carona nos até então novos televisores de alta definição, refere-se ao trabalho de remasterizar uma produção audiovisual (criar um arquivo máster) para resoluções maiores, melhorando em algum grau som e imagem. Ambas as técnicas possuem pontos fortes e fracos, tanto para nós consumidores como para as desenvolvedoras, vamos conhecê-las?

As varias resoluções de imagem, desde 720 x 480, até 3840 x 2160, o 4K das novas TVs.
A evolução das TVs criou uma idolatria pela “resolução ideal” nos games

A Guerra dos Pixels

Entre as duas práticas, o remaster é a mais duvidosa. E parte da culpa sobre isso está com as desenvolvedoras, e a outra parte está com os jogadores. Embora seja uma “exigência” dos gamers dessas últimas gerações, a ponto de criar debates acalorados em fóruns de internet mundo afora, muitos não se importam com os “frames por segundo” e a resolução que seus jogos rodam, a diversão é o único fator essencial. Porém, as desenvolvedoras enxergaram nessa idolatria um nicho, passando a oferecer esse tipo de diferencial nos produtos.

Na prática funciona da seguinte forma: em meados de 2005 é lançado Resident Evil 4 para Game Cube. Esse console de 6ª geração funciona em SD (standard definition) ou 480p (quantidade de linhas de pixel na vertical) de resolução. Anos mais tarde, em 2011, o mesmo game é remasterizado para resolução HD (high definition) 720p e lançado para os consoles da 7ª geração (Xbox 360 e PlayStation 3). Já em 2016, o mesmo jogo é novamente remasterizado para Full HD 1080p e lançado para os consoles de 8ª geração (Xbox One e Playstation 4), sem contar as versões para PC e celulares no meio desse tempo.

É verdade que ninguém é obrigado a comprar o mesmo jogo várias vezes, mas a Capcom, publicadora e desenvolvedora do título, lucra a cada nova geração vendendo o mesmo jogo de 2005 ao valor aproximado de um jogo atual. Este é só um exemplo de inúmeros outros. Há casos em que os jogos recebem um tratamento melhor no remaster, com pacotes de texturas atualizadas, algumas mecânicas refinadas, som em vários canais, novas fases, etc. Mas infelizmente, muito dessas melhorias não são oficiais e para todos os outros a regra é apenas o upgrade da resolução e a adição do “HD Remaster Collection” ou “Definitive Edition” no título.

A comparação da versão original e uma versão melhorada de Resident Evil 4, graças a um patch feito por fãs, e não um remake.
Muitos pacotes de modificações não oficiais estão disponíveis na internet, e prometem fazer aquele trabalho que a desenvolvedora preguiçosa não fez na remasterização

Mesmo naquele caso em que o game recebeu uma “pintura nova”, o preço cobrado por ele realmente não compensa, principalmente se o salto for apenas de uma geração para outra. Se você não teve a oportunidade de jogar aquele grande clássico, e por coincidência o viu desfilando nas lojas novamente, naquele sedutor pacotão HD, não passe vontade. Compre. Desde que o preço seja justo ou esteja em uma boa promoção. Afinal, a desenvolvedora não teve o menor esforço criativo nem gastou recursos para levar aquele game (datado, diga-se de passagem) até você. Agora caso seu console ou sistema possuir retrocompatibilidade e você deixou de jogar algum jogo passado, economize uns trocados e pegue a versão anterior, mesmo uma usada. Além de ser muito mais barato, as melhorias não serão tão drásticas e o melhor, sobrará aquele dinheirinho para os lançamentos atuais.

Cavaleiro de Dragon's Lair segurando a Princesa Daphne na edição HD de Dragon's Lair
Recentemente adquiri uma cópia em alta definição do icônico Dragon’s Lair na Steam (ah princesa Daphne….), clássico arcade de 1983. Paguei irrisórios 19,90 na remasterização, a julgar pela data em que o jogo foi lançado e a dificuldade em encontrar cópias para outras plataformas da época, achei o valor justíssimo.

Apelo aos nostálgicos de plantão

Os remakes costumam povoar o campo dos sonhos. Muitos de nós possuímos alguns jogos clássicos na memória em que gostaríamos de ver com gráficos, jogabilidade, e sons atuais, dignos da nova geração não é mesmo? Isso é natural numa época em que a nostalgia está tão na moda. Para as desenvolvedoras, os remakes são produções como outra qualquer, com muitos custos e tempo de produção. O game é refeito do zero, com um novo motor gráfico, novas mecânicas e tudo mais, somente tendo o original como inspiração.

Se você comparar um game que teve uma versão remake com a obra original, vai perceber nitidamente que muito dos recursos técnicos incorporados posteriormente, ou deixaram de existir no game original por falta de aportes tecnológicos da época, ou mesmo por apelo dos próprios fãs por melhorias. Um exemplo que posso citar aqui, novamente envolvendo nossa ilustre Capcom e sua franquia Resident Evil, é o clássico primeiro capítulo da saga dos zumbis, lançado para PlayStation e Saturn lá em 1996. O game teve uma ótima versão remake lançada posteriormente para o Game Cube em 2002. Para mim, essa é a versão definitiva do survival horror, onde graças ao poder do console da Nintendo à época, a atmosfera de terror foi elevada ao máximo.

Imagem do Resident Evil original ao lado do remake do primeiro game
Reparem como a clássica cena do primeiro zumbi ficou com uma atmosfera mais assustadora no remake de Resident Evil

Crash Bandicoot fez um enorme sucesso com seu remake recentemente, e o que podemos esperar da futura nova versão de Final Fantasy 7? Ocorre que, acredito eu, os remakes não podem virar uma obsessão para os gamers. Isso prejudica a criatividade das desenvolvedoras, que sempre que possível devem tentar nos agradar com ideias inovadoras, histórias inéditas e novas IPs. Vez ou outra é maravilhoso ver aquele nosso game clássico predileto refeito, com tudo o que uma produção atual tem direito (ainda aguardo Parasite Eve e Chrono Trigger!), mas isso não deve virar uma regra nessa indústria cada vez mais repetitiva e pouco criativa.

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