O protagonista de We Are Chicago, Aaron e sua família.

We Are Chicago quer discutir violência real

Eu sou apaixonado pela ideia de jogos serem usados para mais do que só entretenimento. E não falo necessariamente de games educativos, (mas ei, eu joguei Typing of the Dead, não me julguem!) mas os que ajudam em pesquisas científicas, e os que tratam de temas mais complicados, como Gone Home e That Dragon, Cancer. E é na segunda categoria que se encaixa We Are Chicago, em desenvolvimento pela Culture Shock Games.

O projeto é um game de aventura em primeira pessoa, que acompanha Aaron, um adolescente de Chicago. A uma semana da formatura, seu melhor amigo para de ir à escola, e Aaron se vê lidando com gangues, violência e outros tipos de problemas bastante reais para quem vive na região sul da cidade.

 

Um dos responsáveis por We Are Chicago é Michael Block, programador que trabalhou em Organ Trail. Em uma entrevista para o Pixel Cafe, Michael explicou que foi o sucesso de Organ que permitiu começar no trabalho em We Are de forma independente, já que “a maioria das publishers não iria tocar em um game como este”.

Origem

A ideia para o game surgiu enquanto Michael e outros membros da equipe faziam trabalho voluntário em Chicago, realizando entrevistas com pessoas da região. Block comentou que quanto mais pessoas eram entrevistadas, mais eles sentiam a necessidade de humanizar suas histórias, já que normalmente “os noticiários tiram o componente humano, e os substituem por estatísticas”. Todas as situações vividas no game, são baseadas em depoimentos e experiências reais.

Além das entrevistas, o roteiro é escrito por um professor que mora na região, e foram realizados vários playtests para garantir que as situações pareçam autênticas. É claro que isso não foi um trabalho fácil, e houveram algumas dificuldades. Em uma cena, Aaron e a família estão jantando, quando ouvem um tiro em algum lugar da rua. De acordo com a maioria dos entrevistados, como o disparo foi distante e não atingiu a casa, eles continuaram a refeição normalmente, mas do ponto de vista do game design, a falta de reação iria parecer um bug. Ou do som, que foi executado fora de hora, ou dos personagens. A solução foi fazer com que a irmã mais nova do personagem se irritasse com a frequência dos tiroteios, já que ela estaria acostumada a isso.

Diálogos

Uma das características do gameplay serão as escolhas de diálogo. Mas isso também não foi decidido “de graça”, a ideia é que ao fazer o jogador tomar essas decisões, ele compreenda melhor como pensam e agem as pessoas que passam por situações semelhantes. Diminuir um pouco o julgamento frio e distante que fazemos muito pela internet, e mostrar que pessoas diferentes pensam, e agem de formas diferentes, na esperança de aumentar a empatia do público. O único ponto negativo apontado por Michael, é que por se tratar de um game em primeira pessoa, ele pode afastar quem não costuma jogar: “Jogos normalmente são comercializados como algo que é, ou para crianças, ou para pessoas que gostam de desafios intensos, com vários requisitos técnicos. Por isso, o alcance de um game é muito limitado fora da comunidade gamer”.

Aaron conversando com um amigo, e quatro opções de texto disponíveis para o jogador escolher
O jogador terá que fazer escolhas que definirão o rumo da história de Aaron (Divulgação / Culture Shock Games)

We Are Chicago deve ser lançado no início de 2017, e já tem pré-venda liberada em seu site.Talvez ele não seja o tipo de experiência que vá agradar a grande parte do público, já que games desse tipo enfrentam a barreira de apresentar pouco gameplay, em favor de contar sua história. Mas fica a torcida para que a Culture Shock Games atinja seu objetivo, e nos faça compreender um pouco melhor outras pessoas, especialmente as que vivem uma realidade diferente da nossa.

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